Nas pinturas de Constantine Andreou dedicadas às ondas, é difícil separar o contorno de uma mulher reclinada do mar. As curvas que delineiam um ombro ou um quadril se prolongam pela água ao redor.
Amour des vagues é o nome de um tema recorrente e também de várias pinturas. As três obras apresentadas aqui são das décadas de 1980 e 1990: duas são predominantemente azuis, enquanto Femme vague combina ocre e creme.
O corpo se torna água
No ensaio “Amour des Vagues”, publicado em Femme · Femmes: Peintures em 1997, Sophia Kazazi descreve como as formas do corpo se transformam em movimentos do mar:
A onda se torna Mulher e a Mulher se torna onda.
Sophia Kazazi, “Amour des Vagues”, em Femme · Femmes: Peintures (1997). Tradução do francês.
Kazazi interpreta essa transformação em termos eróticos. Ela descreve círculos que se abrem em espirais e ondulações, enquanto o desenho denso de Andreou permite que formas fluidas e sólidas se transformem umas nas outras. Suas referências às sereias e a Ulisses associam a atração sensual exercida pelas mulheres ao risco de se deixar dominar por essa atração.
Kazazi situa o início da série de pinturas em 1976 e o das esculturas de sereias e ondas a ela relacionadas em 1956. Segundo a autora, Andreou havia trabalhado com esses temas na escultura antes de abordá-los na pintura.
Três pinturas

Em Amour des vagues (1983), uma grande figura em tons claros ocupa horizontalmente a metade inferior, com o rosto próximo à borda direita. Acima dela, faixas azuis e lavanda se curvam ao redor de outras formas corporais. Pequenos traços luminosos pontuam a superfície. É fácil reconhecer o corpo amplo e claro, enquanto as linhas mais densas acima dele dificultam a distinção das outras figuras.

O azul é mais profundo em Amour des vagues la nuit (1993–94), e uma larga faixa escura atravessa o centro da composição. Formas claras estão parcialmente submersas nesse campo de cor. Linhas finas e marcas luminosas dispersas destacam fragmentos de corpos, embora às vezes seja difícil distinguir um rosto ou um tronco do azul ao redor.

Femme vague (1991) combina ocre, creme e rosa suave. Contornos escuros percorrem grandes áreas de cor onde o desenho é menos denso; em alguns trechos, várias linhas seguem lado a lado antes de se separar. Um seio, um rosto ou a curva de uma perna aparece nesse desenho contínuo. Aqui, a semelhança com as ondas está sobretudo no modo como os contornos sobem e descem.
Uma memória mediterrânea
A historiadora da arte Sapfo Mortaki interpreta o mar, as ondas e as sereias como memórias mediterrâneas que se prolongam na obra de Andreou na França. Ela as relaciona à experiência do artista na diáspora grega e argumenta que essa herança continuou a orientar suas experimentações com formas e materiais modernos.
Linhas e signos
Ao final do ensaio, Kazazi relaciona a intensidade sensual do tema à busca contínua de Andreou pela harmonia. No texto que assina em Femme · Femmes, o artista descreve a troca entre as primeiras sensações e sua tradução em linhas e signos. Compara esse processo à escrita musical e fala de uma harmonia entre os traços gráficos, o desenho, a cor e a luz.
André Perrot, amigo do artista e autor de um texto no mesmo livro, vê uma tempestade de paixões sob a aparente calma do mar. Também questiona uma divisão rígida dos quadros por temas. Seu texto passa da mulher que se torna onda às que assumem a forma de nuvens, depois às mães e às figuras diante de espelhos.
Fontes
1. Sophia Kazazi, “Amour des Vagues”, em Andreou. Femme · Femmes: Peintures (Édition G. Giannoussis, 1997), sem paginação. O ensaio francês é assinado “Sophie Kazazi”; a relação de colaboradores do volume usa “Sophia Kazazi”. A citação foi traduzida do francês. A cronologia, a transformação recíproca e a interpretação mitológica seguem a análise da autora; as datas dizem respeito à história do tema, e não à identificação de obras específicas.
2. Constantin Andreou, texto do artista, assinado e sem título, que começa com “Depuis mon enfance…”, no mesmo volume. A passagem sobre sensações, linhas, signos, escrita musical e harmonia é uma paráfrase do texto francês.
3. André Perrot, ensaio sem título no mesmo volume. A interpretação da aparente calma do mar e as relações com os demais temas da pintura de Andreou seguem seu texto.
4. Sapfo Mortaki, “Intercultural references: the influence of the Mediterranean on the work of Constantine Andreou, artist of the Greek Diaspora”, Mediterranean Chronicle 5 (2015), p. 245–262, especialmente p. 247–251 e 254–255. A figura 5 (p. 258) reproduz a composição de 1983 apresentada aqui como CAA-W-0059, com o título Femme et l’eau; esta página mantém o título da legenda do livro de 1997, Amour des vagues.
5. Os títulos e as datas das obras seguem as reproduções correspondentes em Femme · Femmes: Peintures. Títulos e anos, por si só, não identificam obras individuais. As descrições detalhadas e as comparações são observações do Arquivo a partir dessas reproduções.
